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sexta-feira, 11 de maio de 2012

Segundo dia de trem

Acordamos as 10:00h de um sono muito tranquilo, dormimos muito bem no trem. Levantamos e fomos lavar os rostos, escovar os dentes e preparar o café da manhã: nescafé e waffer de chocolate.



Estamos na estrada agora, são 13:00h. Vladimir está almoçando seu macarrão instantâneo com pãozinho, chá, e, é claro, um copinho de vodka.



Decidimos fazer o mesmo.



Pelo caminho, muitas paisagens bucólicas.













A chuva chegou.





O túnel passou.



O trem fez uma parada para a troca de locomotiva. Sinal de que estávamos perto da famosa linha divisória invisível que separa a Europa da Ásia, a Eurásia, conforme Sergey nos explicou.







Post da Célia

Pedi para o Ronaldo me deixar escrever um post também. Eu até o ajudo aqui e ali, mas a idéia, a criação e os textos são dele. Só quero uma carona e a carona é para dizer o quanto estou orgulhosa dele. Definitivamente, o estudo do alfabeto cirílico foi fundamental para esta viagem. Tudo bem que o Ronaldo não tem muito vocabulário russo, mas ele consegue decifrar as palavras e, quando elas se assemelham a uma palavra em inglês, português, francês ou espanhol, ufa, é um alívio.

Ele também é capaz de identificar algumas palavras trocadas por dois russos durante uma discussão. Para mim, soa apenas como o incompreensível russo de sempre.

É preciso dizer que Ronaldo continua empenhado em aprender -eu tô mais relax, descansando a cabeça mesmo. Ele já incrementou o vocabulário. Depois das primeiras "aulas" com Olesya, Vladimir o ajudou bastante e os dois conseguem travar diálogos até longos durante a viagem de trem. É muito interessante observar: um pouco de russo, um pouco de mímica, muita vontade de trocar experiências e, voilá, a comunicação se faz.

Basicamente era isso o que eu queria dizer neste momento sobre esta rota incrível que estamos fazendo. Eu e Ronaldo aproveitamos para deixar um pra lá de atrasado feliz dias das mães à dona Laura e à dona Helena. É que em viagem a gente perde a noção do tempo.

Queremos deixar também um especial feliz aniversário à Dô, Tita, nossa tia querida, que fica mais velha hoje.

Uma cena


A noite chegou era 9:40, horário de Moscow. Fomos ao vagão restaurante levando o jogo de dados que o nosso amigo Alexandre trouxe do peru, país que ainda iremos visitar. Ficava meio impossível saber o que era o que no cardápio todo em russo, por isso pedimos apenas uma cerveja.



Ficamos ali, no vagão restaurante, que é muito bonito e bem decorado. Estávamos jogando o nosso jogo de dados quando passou por nós um russo. O cara estava chapadão, a comissária do restaurante começou a brigar com ele. Ela estava nervosa, mandando ele ir embora. Pelo que percebemos, achamos que ele estava querendo fumar ali mesmo mas não é permitido fumar no vagão restaurante. A comissária foi empurrando o cara para o final do vagão restaurante, onde ficam os vagões dormitórios (platz), e o cara ia gritando e dando risadas, uma cena cômica


Pedimos mais uma cerveja, só que de outra marca. As cervejas russas são muito boas, são bem suaves. Célia ganhou a primeira partida de dados, eu ganhei as outras duas, YEAHHH!!!! Nos dirigimos para a nossa cabine e fomos dormir. Spykunie Notche.




Entrosamento


Célia puxou conversa com o nosso vizinho de cabine, Sergey, Russo, nativo de Yekaterinburgo. Sergey falava um pouco de inglês, perguntou de onde éramos, para onde iríamos e também o porquê de escolhermos passar as férias nesta viagem. Já é a segunda pessoa que nos faz esta pergunta. Aqui no trem temos que procurar o que fazer. Eu estou escrevendo, enquanto a Célia estuda o guia da Rússia.



Sergey é muito gente boa também, nos deu várias dicas sobre Yekaterinburgo e até fez um desenho em nosso caderninho de anotações para explicar como chegar até o hostel de bonde. O amigo que acompanhava Sergey, Vadim, pegou seu laptop e traçou a rota da estação até o hostel e nos mostrou. Os dois eram super solícitos.

A fome bateu. Decidimos preparar o nosso rango, um delicioso macarrão instantâneo. Na foto da embalagem, tinha um pedaço de carne de carneiro de mais ou menos 150g, cenoura, 1 fatia de tomate brilhante e saborosa. Abrimos o pacote e nos surpreendemos, o lance já vem com um garfinho de plástico, a própria embalagem já é o recipiente onde se come, e vem 3 saquinhos: um com um molho e a carne, outro com as verduras e outro com o tempero. Muito melhor do que o nosso famoso miojo. Mas como nem tudo é maravilha, a realidade não correspondeu às fotos da embalagem. As verduras eram desidratadas e minúsculas, mais ou menos uns 10g, o molho e carne não passavam de 20g, o tempero era bom.











Os primeiros de 10.000 km de trem


Eu, Célia e Vladimir resolvemos tirar uma soneca. Dormimos mais ou menos uma hora e meia. Acordamos em Vecóvka (Bekobka). 




O trem faz esta primeira parada de 25 minutos. Nesta estação vários ambulantes vendiam seus produtos. Havia todo tipo de coisa: copos de vidro, taças, pratos de comida pronta, flores de vidro, estatuetas de gatinhos. Havia até furões e esquilos empalhados, além de minilustres de vidro, como os de teatro.
 
Os vendedores ficavam andando ao lado do trem e oferecendo seus produtos aos passageiros. Descemos para tomar um pouco de sol, tiramos algumas fotos, como esta em que Célia está com o bouquet de flores de vidro nas mãos.






Continuamos a nossa viagem e houve mais paradas, só que de 2 minutos, rapidinhas. Em uma delas eu tirei fotos de uma locomotiva antiga.



Após o banho de sol, decidimos pedir à Olga 2 canecas (dica do Vladimir) para tomarmos café solúvel.


 

A paisagem é linda, passamos por várias cidadezinhas e vilas, com suas casinhas de madeira. Passamos também pelo rio Oka.
















Enfim, a Transiberiana


Nos dirigimos ao pessoal de bordo do trem que estava na entrada de cada vagão. O nosso era o número 12, segundo a passagem, ao lado do vagão restaurante. Falamos com Olga, a responsável pelo de número 12. Muito simpática, nos perguntou de onde éramos, para onde íamos, se tínhamos filhos, etc. Olga tem dois filhos com idade de 30 e poucos anos. Ela é avó (Babushca) de dois netos. Tiramos uma foto juntos na frente do trem.




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Olga é natural de Ulan-Ude. Aprendemos com ela que se pronuncia Ulan-Udê, e não Ulan-Úde, como vínhamos falando até agora. A comissária nos levou para dentro do trem e nos acompanhou até a nossa cabine, a de número 3. 


Já havia um senhor na cabine. Entramos com nossas bagagens, arrumamos tudo. Tem bastante espaço para as malas: embaixo da cama e também na parte de cima. Apesar de termos bastante bagagem, ainda assim caberia mais. 

Comecei a puxar conversa com o senhor que ali estava, afinal de contas ele seria nosso companheiro de viagem pelas próximas 28 horas. Vladimir é o nome desse senhor que tem 74 anos e é ucraniano. Pelo que vimos, ele é experiente nos trens. Todo organizado, trazia com ele uma sacola de mantimentos, pães e queijos. Em cima da mesa, havia uma caneca, uma caixa de saquinhos de chá, uma caixa de torrões de açúcar, um pote de geleia de frutas, talheres e um copinho próprio para vodka.
Embaixo da mesa, uma garrafa de água e uma de leite, além, é claro, da garrafinha plástica de água mineral com vodka dentro. 

Vladimir (se pronuncia Vladímir, e não como falamos no Brasil) nos ensinou algumas palavras em russo, como, por exemplo, кружка (caneca), стекло (copo), ctoпка (copinho próprio para vodka) e тапкы (chinelos). Ele não paga para viajar nos trens, pois é um senhor de terceira idade. Não demorou muito, ele me ofereceu um copinho de vodka. Peguei meu ctoпка e, é claro, aceitei. 

Fomos explorar o nosso vagão e olhar a vista pela janela.

 

Quase lá.


Ainda no dia 10 de maio, pela manhã, percebemos que o visto da Célia é válido até o dia 30 de maio e que o nosso voo de volta ao Brasil é no dia seguinte, 31 de maio. Dessa forma, Célia estará ilegal na Rússia por um dia. Olesya disse que poderemos ter problemas com isso. Ela nos sugeriu que, quando formos de Vladivostok para São Petersburgo, no aeroporto mesmo, procuremo o consulado para sabermos o que temos que fazer. Acreditamos – Olesya também – que será simples, apenas questões burocráticas.

Estávamos a uma hora de embarcar no trem. Ficamos ali, os três, meio que enrolando para não nos despedirmos, para aumentar ao máximo o tempo juntos. Olesya ainda insistiu para esperar a hora de entrarmos no trem, mas já era abuso demais da nossa parte. A despedida, inevitável e dolorida, foi feita regada a lágrimas. Todos de olhos vermelhos e narizes escorrendo.  

Agradecemos de todo o nosso coração o apoio de Olesya e a sua amizade. Mas é a vida e temos que seguir em frente. Dizem que há pessoas que passam por nossa vida e outras que ficam para sempre. Olesya é uma das pessoas que ficarão para sempre em nossas vidas.

Pegamos as mochilas e malas, fomos procurar o número do portão do nosso trem, o 82. Perguntei a um guarda da estação, mostrando a passagem, e dizendo: “port” (порт, em russo).  O guarda resmungou em russo e he (nâo em russo) deu para eu entender.

Um passageiro da estação, ouvindo aquilo tudo, tentou me ajudar. Olhou minha passagem e eu dizia: “port”. Ele c ompreendeu e me mostrou um painel luminoso na parede no outro lado da estação. Nesse painel havia o número do trem, destino e o número do portão de embarque.  Agradeci em russo: “spaciba”(спасибо em russo) e chamei Célia para comer alguma coisa. 
 
Paramos em uma barraquinha dentro da estação , escolhemos um salgado cada um apontando o dedo, mas, desta vez, já estávamos com o nosso russo avançado. Apontamos o dedo e dissemos: “adin” (um em russo) e complementamos com “spaciba”. Queríamos beber algo também. Como vimos um jovem bebendo chá ao lado da barraquinha, dissemos té, ti e tea, mas não funcionou. 

Apontei o dedo para o copo de chá  do rapaz. O mesmo logo percebeu a dificuldade com a língua e nos ajudou dizendo ao balconista: “chai”. Este mesmo rapaz nos ajudou a dispensar um mendigo que chegou pedindo dinheiro. Penso que ele deve ter dito ao mendigo que somos estrangeiros e que não entendíamos a língua russa. O mendigo resmungou algo e foi embora.


Comemos o nosso salgado, bebemos o chai e nos dirigimos ao portão 1. O trem 82 já estava lá, era o nosso trem. `Pedimos a duas moças russas que tirassem uma foto nossa ao lado do trem. Tudo em mímicas. Elas entenderam, tiraram a foto e pediram o mesmo. 

Nosso último pedido


No dia 10 de maio, acordamos às 8h30. Olesya iria nos encontrar às 10 horas em nosso hostel. Ela vai conosco até a estação de trem (nosso último pedido) e nos ajudar a comprar as passagens de todos os trechos que planejamos para a rota Transiberiana. Desta forma, as nossas pedras no caminho serão bastante reduzidas.

Olesya chegou no horário marcado. Pedi que Ana, recepcionista do Hostel, chamasse um táxi para nós.  O carro chegou em 10 minutos e tiramos algumas fotos da nossa saída do hostel. Entramos no carro e partimos para a estação de trem. Ao chegarmos na Estação, Olesya se informou onde eram os caixas para comprarmos as passagens. Ela está sempre de bom humor e muito prestativa. 



Na noite anterior, anotamos no nosso caderninho todos os horários dos trens que tínhamos planejado no Brasil. As anotações eram bem completas: destino e origem, horário de saída e de chegada com horário de Moscow e local, fuso-horário e tempo de viagem de cada trecho. Pedimos a Olesya que tentasse conseguir trens seguindo o planejamento original. 

  
Quase todas as passagens foram conseguidas sem alterações de horário. Apenas o trecho de Ulan-Ude até Vladivostok é que teve o horário alterado em relação ao nosso plano original. Sairemos uma hora após, mas chegaremos duas horas antes. Deve ser por causa das diferenças de velocidades dos trens.  


Outra coisa que alteramos do plano original foi a classe das cabines. Planejamos, no Brasil, fazer todos os trechos em segunda classe. Isto é, uma cabine para quatro pessoas (com dois beliches). 

O primeiro trecho de Moscow e Yekaterimburgo leva 28 horas. Este, nós compramos em cabines de segunda classe, os chamados koupe.

O segundo trecho, de Yekaterimburgo até Irkutsk, leva 49 horas e também será feito em cabine de segunda classe. 

O terceiro – de Irkutski a Ulan-Ude – leva 8h59. Neste trecho, compramos em terceira classe. A terceira classe é um vagão que não tem cabines. As camas são dispostas por todo o vagão. É o chamado Platz. 

O quarto trecho (de Ulan-Ude a Vladivostok) leva 78h24min e optamos pelos vagões de primeira classe, pois assim teremos a experiência completa nas acomodações dos trens russos e ficaremos mais confortáveis durante o trecho mais longo da viagem, com quase 4 mil quilômetros.

Tudo decidido, Olesya conseguiu comprar todas as passagens para nós sendo bem fiel ao planejamento original. Enquanto ela pedia informações e conversava com a moça da bilheteria – que só fala russo -, eu e Célia ficávamos imaginando como seria passar por essa etapa sem essa ajuda. Naquele momento nos parecia impossível.

Resumo de postagens